Em 2010, em parceria com a Balafon Produtora, o Laboratório de Antropologia Visual – Arandu e o Núcleo de Documentação Cinematográfica – NUDOC, ambos da UFPB, produziram em João Pessoa a Mostra Jean Rouch, uma retrospectiva da obra do antropólogo cineasta que passou por várias capitais brasileiras entre 2009 e 2010. A “volta de Rouch à Paraíba”, com 37 filmes, entre eles filmes inéditos e desconhecidos de muitos pesquisadores da área de cinema e antropologia, movimentou a relação de muitos de nós, professores da UFPB, com o cinema paraibano.

Afinal, em 1979, uma cooperação entre Rouch e a Universidade Federal da Paraíba plantou no meio acadêmico e cultural da cidade uma maneira de registrar imagens em audiovisual que, ao mesmo tempo em que lançou frutos como os que veremos no acervo digitalizado, provocou também polêmicas entre realizadores quanto ao estilo do Cinema Direto e ao uso do Super-8. Em meio a esta percepção, alguns professores do curso de antropologia e de cinema da UFPB resolveram pesquisar e recuperar um pouco desta memória que envolveu aquele momento efervescente de produção audiovisual na Paraíba. A ideia foi “tornar público” (no sentido de dar ao público o direito de ter acesso) filmes e registros que foram feitos no final da década de 1970 e ao longo de 1980 e que estavam depositados no acervo do NUDOC, na UFPB, além de arquivos particulares. Assim nasceu este projeto que se propôs a catalogar e digitalizar em torno de 100 filmes e registros (filmes sem nenhum tipo de edição) – nem todos chegaram a ser digitalizados devido ao estado físico do filme – em película, que, a partir de agora, estarão disponíveis em um website para serem assistidos e visualizados por qualquer interessado, sejam especialistas ou leigos.

A filmografia pesquisada, com 92 títulos, é em sua maioria constituída de produções na bitola Super-8, que estavam distante dos circuitos exibidores, mesmo os mais alternativos. O mesmo acontecia com os poucos títulos produzidos em 16 mm. Quase todos os filmes Super-8 aqui destacados não possuíam cópias, sendo, portanto, matrizes únicas. A sua projeção convencional, no caso de algum dano, poderia comprometer a integridade autoral dos filmes. Dessa forma, fazia-se necessário transpor os filmes para o formato digital, possibilitando a sua exibição e preservando as matrizes.

A parceria com o fotógrafo Roberto Buzzini foi fundamental para a materialização de um dos objetivos do Cinema Paraibano: Memória e Preservação. Buzzini foi o responsável pela telecinagem dos filmes coletados ao longo da pesquisa empreendida e em entrevista, ele deixa nesta publicação seu depoimento sobre a relação que estabeleceu com a película e com o nosso projeto.

Indo além dos limites da filmografia aqui levantada e detalhada em sinopses e fichas técnicas no final do livro, os autores dos textos desta publicação trazem argutas reflexões sobre a produção cinematográfica paraibana e brasileira no formato alternativo do Super-8.

Abrindo o debate, a antropóloga Lara Amorim apresenta o Projeto Cinema Paraibano: Memória e Preservação refletindo sobre a pesquisa que embasa os diferentes momentos que vão da catalogação do acervo de filmes depositados no NUDOC, telecinagem, realização da mostra de filmes em João Pessoa e editoração deste livro à publicação final do conteúdo em um website. Neste sentido, relaciona os ciclos de produção do documentário paraibano com questões que envolvem a memória e a patrimonialização de acervos imagéticos. Enfatiza, sob uma perspectiva antropológica, a relação entre a produção audiovisual e questões de identidade e a possibilidade de se pensar o produto audiovisual como um “bem patrimonial” e um “dispositivo de memória coletiva”.

O texto inédito de Rubens Machado revela, em tom intimista, o desenvolvimento de um circuito de filmes e festivais no Brasil, em plena ditadura militar. Machado ressalta o caráter provocativo e renovador da produção superoitista e seu diálogo com as artes visuais, com a indústria cultural veiculada pela televisão e sua relação com a revolução comportamental deflagrada na década de 1960.

Integrante de uma geração de realizadores paraibanos surgida no final da década de 1970, Pedro Nunes ressalta o tema da sexualidade e da subversão da linguagem documental mais convencional em filmes do início da década de 1980. É dele também a entrevista inédita publicada no livro, com o cineasta e agitador cultural pernambucano Jomard Muniz de Britto, autor de uma vasta filmografia em Super-8, tendo atuado também na Paraíba como professor e realizador.

Bertrand Lira aponta a estruturação, na Paraíba, de um núcleo de produção fílmica baseado nos conceitos do Cinema Direto. Fruto de convênio entre a Universidade Federal da Paraíba e a francesa Associação Varan, esse núcleo possibilitou o desenvolvimento de uma geração de realizadores, em sua maioria ainda em atividade, caso do próprio Bertrand, autor de documentários e mais recentemente, de filme ficcional.

Em seu texto, João de Lima Gomes, também cineasta da geração surgida em fins da década de 1970, detalha os caminhos percorridos entre franceses e paraibanos para a implementação de atelier de Cinema Direto na Paraíba, que resultou na criação do NUDOC. A dupla condição de realizador e pesquisador não o impediu o trio de exercer a observação crítica de quem conhece profundamente os filmes e o período em estudo.

Fechando a reflexão que esta publicação propõe, Fernando Trevas Falcone destaca a importância da temática social na produção paraibana, desde a eclosão do ciclo de cinema documentário na Paraíba com o clássico Aruanda, passando pelos filmes realizados nas bitolas Super-8 e 16 mm nas décadas de 1970 e 1980 enfatizando questões ligadas à miséria urbana, lutas camponesas, trabalho, política cultural e meio ambiente.

Foi, portanto, fundamental para o nossa empreitada a estreita colaboração dos autores desta antologia, outra proposta do Cinema Paraibano: Memória e Preservação. Todos eles, desde o início, mostraram-se receptivos ao projeto, colaborando não apenas com a cessão de seus textos, mas também com sugestões e incentivos. A todos, nosso agradecimento.